Quarta-feira, 20 de Julho de 2016
FMI vê evidências de virada na economia brasileira FMI vê evidências de virada na economia brasileira
O FMI projeta uma “normalização” na economia brasileira e não considera que a melhora de 0,5 ponto percentual na previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2016 seja um grande salto. “É uma combinação de vários fatores. A gente vê evidências de mudanças e virada na economia”, informou a diretora da divisão de estudos da economia mundial da instituição, Oya Celasun, durante coletiva de imprensa nesta terça-feira (19).

Em relatório divulgado nesta terça-feira (19), o Fundo Monetário Internacional melhorou pela primeira vez – após cinco revisões para baixo – sua projeção para o PIB do país este ano. A expectativa agora é que a economia brasileira "encolha" 3,3% em 2016 – ante uma queda de 3,8% estimada em abril.

Para 2017, o FMI agora prevê que a economia brasileira voltará a crescer. O órgão estima um avanço de 0,5% no PIB, contra uma projeção de crescimento nulo feita nos dois últimos levantamentos do órgão.

Considerando as projeções feitas para todos os anos, é a primeira vez desde o relatório de julho de 2012 que o FMI melhora uma estimativa feita para a economia brasileira. Na ocasião, o fundo elevou de 4,1% para 4,6% a estimativa de crescimento para o PIB de 2013.

Segundo Oya, o mercado financeiro está reagindo bem ao novo momento da economia brasileira, e o consumo deve melhorar com a volta da confiança nos indicadores. Oya disse que a confiança havia piorado muito devido à demora nas reformas necessárias.

De acordo com Gian Maria Milesi-Ferreti, diretor do departamento de pesquisas do FMI, em 2015 houve um encolhimento rápido da economia do país, então um encolhimento da queda já implica uma melhora e uma virada.

Para o FMI, a confiança dos consumidores e empresários já atingiu o ponto mais baixo e a contração econômica no primeiro trimestre deste ano foi menor que a esperada.
O FMI informou ainda que estava preparado para elevar sua perspectiva para a economia em 2017 em 0,1 ponto percentual, no embalo do melhor desempenho de grandes mercados emergentes, em especial Brasil e Rússia, mas a Brexit mudou os planos.

Projeções para 2016

Em sua primeira projeção para 2016, feita em abril de 2014, o FMI considerava que a economia brasileira cresceria 1,5% este ano. A projeção, no entanto, piorou gradualmente, por cinco vezes seguidas (veja o gráfico). Passou de uma contração esperada de 1%, em outubro de 2015, para recuo de 3,8% em abril deste ano.

Agora, o órgão projeta uma queda um pouco menos brusca. “A confiança do consumidor e dos empresários parece ter melhorado no Brasil, e a contração do PIB no primeiro trimestre dá sinais de ter sido mais suave que se previa”, diz o órgão no relatório.

Como efeito, a recessão de 2016 no país deve ser “levemente menos severa, com um retorno de crescimento positivo em 2017”, aponta o FMI. Apesar disso, acrescentou o órgão no relatório, "incertezas políticas ainda persistem" e podem obscurecer as projeções.

Brexit piora as projeções globais

Apesar do cenário menos pessimista para o Brasil, o órgão cortou em 0,1 ponto percentual a previsão de crescimento da economia mundial, passando para um avanço de 3,1% em 2016. Para 2017, o FMI estima um avanço da atividade global de 3,4% – ante 3,5% previstos em abril.

O referendo do dia 23 de junho que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) adicionou uma "pressão negativa à economia mundial", avaliou o diretor de pesquisa do FMI, Maury Obstfeld, em comunicado do órgão.

"Até 22 de junho, nós estávamos preparados para melhorar levemente nossas projeções mundiais para 2016 e 2017. Mas a Brexit colocou tudo a perder em nossos trabalhos", escreveu.

O fundo disse que apesar das recentes melhoras no Japão e na Europa e de uma recuperação parcial dos preços das commodities, a decisão britânica de sair da UE criou um "aumento considerável na incerteza" que irá reverberar no investimento, no mercado e na confiança do consumidor.

A previsão para o PIB do Reino Unido em 2016 foi cortada em 0,2 ponto percentual, para avanço de 1,7%. O FMI cortou ainda mais a previsão do Reino Unido para 2017, em 0,9 ponto percentual, para 1,3%.

O fundo elevou ligeiramente sua estimativa para o crescimento da zona do euro em 2016, mas cortou a perspectiva de 2017 em 0,2 ponto, para 1,4%.

Para as economias emergentes e países em desenvolvimento, o órgão manteve a projeção de avanço de 4,1% em 2016, e de 4,6% em 2017. Para a China, o cenário ficou praticamente inalterado, com uma ligeira melhora para 6,6% em 2016, mas ainda desacelerando a 6,2% em 2017.

Já os países da América Latina e Caribe devem "encolher" 0,4% este ano – uma piora de 0,1 ponto percentual em relação à última previsão.

Pequeno 'alívio' nas projeções

O FMI não foi o único a melhorar a projeção para o PIB brasileiro deste ano. Esta semana, o mercado financeiro passou a estimar um "encolhimento" menor do nível de atividade da economia em 2016 e uma expansão maior no ano que vem.
As projeções são do boletim Focus do Banco Central, que consultou mais de 100 economistas. Para este ano, eles melhoraram a estimativa para o PIB de uma contração de 3,30% para uma queda menor, de 3,25%.

Após ter crescimento marginal em abril, o nível de atividade da economia voltou a cair, segundo o Índice de Atividade Econômica do BC, o IBC-Br – criado para tentar antecipar o resultado do PIB. Ele recuou 0,51% em maio na comparação com abril, após ajuste sazonal (espécie de "compensação" para comparar períodos diferentes).

Primeiros sinais de reação

Para o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), Claudio Considera, alguns dos mais recentes indicadores macroeconômicos foram “menos ruins” que os anteriores, podendo apontar como "primeiros sinais" de reação da economia.

“Essa mudança [nas projeções] tem a ver com uma leve melhora em dados da atividade da indústria, no setor de construção civil e do consumo de energia elétrica”, avalia Considera. A produção da indústria brasileira ficou estável em maio, cresceu 0,1% em abril e 1,4% em março, na comparação mensal.

Esses números interrompem várias contrações seguidas no indicador divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Aparentemente, existe uma tendência de melhora na economia, mas é cedo para tirar conclusões e qualquer recuperação será lenta”, pondera.

O pesquisador também aponta uma retração "menos desfavorável" no setor de serviços como condutor de um pessimismo menor. Em maio, o volume recuou 6,1% frente ao mesmo período do ano anterior, a maior queda desde 2012 para o mês. Já na comparação com abril, a baixa foi menor, de 0,1%. Na comparação anual, o que mais influenciou a queda de 9,1%, foram os transportes, principalmente o aéreo (-15,1%) e terrestre (-10,5%).

No comércio varejista, as vendas continuam ruins. Elas recuaram 9% em maio ante o mesmo mês de 2015, a maior queda para o mês desde 2001, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com abril, que registrou alta de 0,3% (dado revisado), a queda foi de 1%, a maior para o mês desde 2000.

O resultado está 12% abaixo do ponto mais alto da série, em novembro de 2014. “O desemprego e a inflação ainda corroem a renda do brasileiro e isso ainda reflete no consumo e serviços”, diz Considera.
Fonte: G1
Tags: Economia, Fmi, Ibge
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