Quarta-feira, 08 de Abril de 2015
Comércio 'da moda', paleterias se multiplicam e enfrentam concorrência Comércio 'da moda', paleterias se multiplicam e enfrentam concorrência
Surge uma oportunidade de um novo negócio, o produto é novo no mercado e a demanda é grande. Até que, de repente, parece que todos tiveram a mesma ideia. Como sobreviver à concorrência crescente?

Em São Paulo, o produto "da moda" do momento são as paletas mexicanas – grandes picolés de frutas com recheio. Em uma única rua no Tatuapé – a Itapura, com cerca de 1,5 km de extensão –, na zona leste da cidade, seis pontos de venda oferecem o produto.

Philipe Prado diz ter sido o primeiro a abrir uma paleteria no local. Ele é um dos donos da Señor Paletas, inaugurada em outubro de 2014. Dois meses depois, foi a vez de outro empresário, Claudio Francisco dos Santos, abrir na mesma rua uma unidade da Los Mexicanos (rede que funciona em sistema de franquia e tem 25 unidades em São Paulo, Minas Gerais, Amazonas e Distrito Federal).

Atualmente, os donos dos negócios da região dizem já ter perdido as contas de quantos concorrentes têm no bairro. A primeira paleteria de rua do Tatuapé, a Los Primos, foi inaugurada em julho de 2014 na Rua Emília Marengo, que faz esquina com a Itapura. O bairro conta com uma paleteria até mesmo em posto de gasolina (há dois meses, a Los Sombreros Paletas substituiu a loja de conveniência de um posto na Rua Serra de Bragança, a cerca de 500 metros da Itapura).

Cupcakes e sorvete de iogurte
O consultor de negócios e especialista em estratégia Daniel Schnaider lembra outros movimentos semelhantes ao da paleta mexicana. “Teve o frozen yogurt, os cupcakes e até redes de sushi. Esses negócios abrem em grande quantidade, tem rede de sushi até em posto de gasolina", diz.

"É tudo a mesma característica. Tem uma empresa central, que é a marca, e supostamente você só tem que abrir a lojinha e vem tudo como mágica", diz Schnaider, que explica que sobreviver com um “negócio da moda” não é tão simples assim (veja dicas no final da reportagem).

Segundo o especialista, mais de 70% das micro e pequenas empresas no Brasil fecham em 5 anos após a inauguração. “Isso mostra como é difícil ser empresário”, aponta. “Se você tem competência de contratar gente de confiança e responsável, tem mais chances de sucesso”.

Claudio, da Los Mexicanos, conta que não esperava que a concorrência fosse aumentar tanto. “Vai morrer muita gente abraçada. Tem muita coisa, chega um momento em que você fica estrangulado. De repente [a paleta] virou uma coisa que todo mundo coloca em qualquer lugar”, reclama. “Pra gente foi uma coisa muito chata, a gente ficou realmente chateado, porque é um produto bom.”
Já Philipe, da Señor Paletas, admite que já esperava esse crescimento rápido da concorrência. Ele diz que está confiante de que vai conseguir manter seu negócio mesmo depois que a moda passar. “Tudo o que está na moda o pessoal vai querer abrir também, não tem jeito”, aponta.

“Justamente por causa da concorrência, o que vai prevalecer é a qualidade", diz o empresário. "Se não for boa, [o negócio] não fica. Eu acredito que em mais uns dois ou três meses vai fechar um monte de paleteria. Foi o que aconteceu com o sorvete de iogurte: teve aquela febre, abriu uma em cada esquina, acabou fechando tudo e ficou uma ou outra. É o que vai acontecer com a paleta”, compara Philipe.
Concorrência aumentando
Philipe e Claudio enfrentam na Rua Itapura a concorrência de casas que têm outro tipo de negócio como principal e passaram a vender, também, paletas mexicanas. A lanchonete Empada Express, por exemplo, colocou uma placa na entrada informando que vende também paletas mexicanas. “Estava muito fraco o movimento só com empadas. A paleta agregou realmente, mas não está mais tão bom porque abriram muitas [paleterias]”, diz o proprietário Alberto Hungria.

Na mesma rua, a sorveteria “Sabor de Infâncias”, que tem como carro chefe o sorvete americano de máquina, agora tem também uma geladeira com paletas mexicanas. “Foi uma ‘jogada de marketing’, mas a prioridade é o sorvete, nosso carro-chefe. Vende mais, até pelo preço, que é R$ 2,50, contra R$ 7 da paleta”, diz a dona do negócio, Catia Falci Hilario.

Ainda na Itapura, a Sorvetão, cujo produto principal é o salgado, também aderiu à moda e começou a vender paletas. “A paleta é uma novidade, mas não acredito que vai continuar a ser o sucesso de quando inaugurou, quando era uma febre. Tem um movimento, mas não mais com a fúria de antes”, diz uma das donas do local, Eloísa Guedes Sartorato.

Na rua há ainda dois restaurantes mexicanos. No Don Miguel, aberto há 9 anos, as paletas mexicanas estão no cardápio de sobremesas há 4 meses. Ao contrário dos outros pratos, elas não são produzidas no local.

O outro restaurante mexicano da rua é o La Buena Onda, onde, porém, a paleta não tem espaço, segundo o mexicano Arturo Herrera, dono da casa. "É uma moda passageira como o foi frozen yogurt. As paletas aqui não têm nada a ver com as do México. Lá são de frutas, não existe com leite condensado, chocolate belga, gourmet não sei do quê", compara Arturo, explicando que procurou seguir o máximo possível a culinária mexicana para a criação do cardápio.

Schnaider aponta que passar a oferecer o “produto da moda” entre os que eram oferecidos antes é uma atitude que requer cuidado. “O empresário, por mais que seja o dono de uma só lojinha, é um empresário. Se ele pensar que só um produto da moda vai ajudá-lo, vai quebrar. O modismo tem aquele pico. Você compra mais matéria-prima para fazer mais cupcakes, por exemplo, e de um segundo para outro a moda acaba e você quebra”, explica.

Ele aponta também que aproveitar produtos da moda podem ser sinal de uma necessidade de definir melhor a estratégia a longo prazo da empresa. “Se você fica mudando de produto de forma constante, a estratégia muda de forma constante”, diz.

“Uma estratégia é de longo prazo por definição. Ela tem que funcionar em tempo de alta e de crise. Se alguém fica tentando mudar a estratégia, não acho que vai funcionar. Todas as empresas grandes têm estratégias bem definidas que funcionam em tempos bons e ruins. A pequena empresa não deve ser diferente disso.”

Como sobreviver com o ‘negócio da moda’?
Schnaider explica que, embora seja uma escolha arriscada, montar um novo negócio baseado em um produto que está na moda pode ser lucrativo, desde que o empresário tenha consciência de tudo que é necessário para manter as portas abertas.

Veja abaixo 6 dicas do especialista:

Responda a três perguntas: você leva jeito para isso? Conhece o assunto? Gosta dele?

“Se não atende a esses três requisitos, nem chegue perto”, aconselha Schnaider. O especialista afirma que, independentemente de ser um produto da moda, é necessário ter afinidade com a área antes de abrir um negócio. “De uma forma geral, a pessoa deve investir dinheiro em algo em que ela é muito boa, profissional. Se você não é do ramo alimentício, não vai poder concorrer com alguém que é bom no que faz e que ama o que faz.”

Mesmo se escolher entrar na área pelo sistema de franquia, não se descuide

“A franquia não tira a responsabilidade da empresa de gerir seu caixa local. Se ele não tem o conhecimento de fazer o controle e pagar a parte tributária e começa a cometer os erros de empresários inexperientes, vai pagar o preço”, alerta Schnaider. “Todas essas questões são de responsabilidade do empresário. Por mais que a marca seja importante, ela não basta.”

A qualidade do produto é importante, mas não aposte apenas nisso

Schnaider explica que a qualidade dos produtos é fundamental para fidelizar a clientela, mas aponta que é necessário criar uma “experiência de consumo” em torno deles. Segundo ele, é preciso criar algo que diferencie o produto da concorrência. “Se o trabalho é bem feito, mesmo que já exista [produtos semelhantes no mercado], o produto tem um conceito. Nesse caso, o que está funcionando mais que o próprio produto é a experiência [de consumi-lo].”

Invista no ambiente e no serviço

“Se o empresário criar uma experiência para o usuário, entendendo qual é o nicho de pessoas que frequentam o estabelecimento, ele vai durar além da moda”, afirma Schnaider. Entre as formas de criar uma “experiência” de consumo para os clientes citadas por ele está a criação de um ambiente aconchegante, com comodidades como internet, espaço para leituras e reuniões, além de uma boa qualidade do serviço. “A moda vai mudando, ele vai se adaptando, mas se trabalha a mesma marca vai ter o público que volta porque gosta do lugar.”

Fidelize sua clientela antes de pensar em expandir o negócio

Para o empresário que quer aproveitar um tempo de alta nas vendas para abrir novas unidades, Schnaider aconselha: “primeiro crie um modelo que fidelize o cliente, e que se prove como fidelizador. Crie um espaço para o qual as pessoas gostem de voltar, para depois crescer.”

Não “engane” seu cliente

A confiança é fundamental para que o cliente volte a um estabelecimento, explica o especialista. Por isso, em tempos de dificuldade, usar manobras para aumentar os ganhos pode ser uma má ideia. “A gente vê restaurantes que mantêm o preço igual, mas diminuem o tamanho dos pratos. Acham que o cliente é bobo, mas na verdade está arriscando a reputação deles.”
Fonte: G1
Tags: Economia, Comércio, Paleterias, Concorrência, Novo negócio
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