• Setembro de 2017
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O varejo brasileiro desacelera. E agora?

"Os números não mentem. O crescimento parou e o governo continua insistindo nos mesmos estímulos". É assim que Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso, resume a situação da economia brasileira. Ele participou nesta terça-feira (26/08) do 17º Fórum de Varejo da América Latina, promovido pela consultoria Gouvêa de Souza (GS&MD).

O setor de varejo, que apresentou índices de crescimento acima do PIB nacional na última década, parece desconfiar que os próximos anos não serão tão prósperos assim. "Nesse momento, após um crescimento acelerado, a mudança de ventos exige uma mudança do mercado", afirma Marcos Gouvêa, diretor-geral da GS&MD.

A onda em que o varejo surfou está perdendo força. A economia brasileira já não tem mais o mesmo fôlego. O aumento do crédito, o endividamento familiar e a demografia favorável (muitos jovens entrando no mercado de trabalho), além do crescimento da classe média, que resultaram em um boom do consumo das famílias, já dá sinais de esgotamento. "Não se pode esperar que nos próximos dez anos o crédito cresça como nos últimos dez. O endividamento familiar não tem espaço para dobrar de novo", justifica Gustavo Franco, também ex-presidente do BC e fundador da Rio Bravo Investimentos.

Baixo crescimento

A culpa da desaceleração da economia brasileira não pode ser transferida para a crise externa, defende Loyola. Munido de dados como "de 2011 a 2014, o crescimento brasileiro foi 47% inferior à media da América Latina e 52% inferior à média global", ele conclui que "deve ter um problema aqui mesmo". "Desafios internacionais sempre existiram. Raros são os momentos de bonança". Entre os problemas do país ele cita a atual ausência de dinamismo na economia, com o aumento da inflação, a diminuição da confiança do empresariado e do consumidor e os riscos setoriais, como no caso do setor elétrico. Ele e Gustavo Franco não pouparam críticas ao que consideram um desvio do tripé macroeconômico (metas de inflação, câmbio flutuante e austeridade fiscal) por parte do atual governo.

Já Flávio Rocha, presidente da Riachuelo e um dos representantes do varejo durante o debate, criticou os estímulos do governo para beneficiar setores específicos. "Não existe outro caminho senão dar espaço ao juiz maior da economia, que é o livre mercado", defendeu. "O erro está no intervencionismo".

Soluções

As propostas para estimular a economia, nesse cenário mais desafiador para o mercado, seria criar novos fatores de crescimento e apostar na alta da produtividade. "O binômio produtividade e competitividade nesse momento ganha relevância decisiva", defende Rocha. Para ele, depois de consolidadas a democracia, a estabilidade econômica e a diminuição da desigualdade, a conquista da produtividade seria o próximo grande passo a ser dado pelo Brasil.

Outra saída, segundo Marcos Gouvêa, seria mudar a pauta de exportações brasileiras. Em vez de apostar apenas nas matérias-primas, área em que o país já atua, o ideal seria exportar também produtos de valor agregado. Ele usou o exemplo das cápsulas de café para máquinas de bebidas. "A gente produz o café, mas o valor agregado, no caso as cápsulas, fica lá fora".

Nesse sentido, Loyola defendeu que o país pense não apenas na manufatura, mas também em pesquisa e inovação. Dessa vez, o exemplo foi o iPhone: é melhor conceber um smartphone ou fabricá-lo?", questionou.

Em momentos como esse, também é de se esperar que a velha receita de combinar o fim dos gargalos estruturais com as reformas tributária e trabalhista volte à pauta, o que de fato aconteceu durante o debate. Mas ela é muito mais difícil de colocar em prática no curto prazo. Muito menos quando se está em ano eleitoral com um cenário absolutamente indefinido. De qualquer maneira, não há dúvida de que o próximo presidente terá de enfrentar essas demandas caso queira criar um ambiente de negócios que não exija tanta coragem.