• Setembro de 2017
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Potencial de consumo de BH vai cair R$ 1,52 bilhão este ano

O aposentado João Bosco Fonseca planejou viajar com a mulher para Porto Seguro (BA) este ano, mas desistiu do passeio ao pesquisar o custo dos pacotes turísticos: “Queria financiar em 12 vezes. O juro me fez adiar o plano para 2015”, diz. A história de João ajuda a entender uma estatística triste para a economia de Belo Horizonte: o potencial de consumo dos moradores da cidade estimado para este ano será 2,5% menor do que em 2013. O percentual pode até parecer pequeno, porém, em números absolutos, corresponde a um recuo da ordem de R$ 1,52 bilhão, comparando-se a cifa do ano passado de R$ 60,649 bilhões com a de R$ 59,129 bilhões no acumulado de 2014.

Em sentido oposto, o indicador crescerá R$ 261 bilhões no Brasil, passando de R$ 3,001 trilhão para R$ 3,262 trilhões – alta nominal de 8%. Das 27 capitais, só três vão registra queda no potencial de compras – as outras duas são Natal (0,16%) e João Pessoa (0,78%). BH, portanto, é a única do Sudeste a apurar retração. Os dados foram elaborados pela empresa IPC Marketing Editora, especializada em estudos sobre demografia e consumo, que leva em conta apenas o potencial de compras das famílias, desprezando as reservas das pessoas jurídicas.

O recuo do indicador da capital mineira refletirá na participação do potencial de compras das famílias de BH no bolo nacional. Trata-se do chamado share de consumo, cujo percentual diminuirá de 2,02103% para 1,81261%, de 2013 para este ano. Vários motivos explicam essa diminuição. Um deles é consequência de uma realidade que os especialistas, a exemplo de Marcos Pazzini, diretor da IPC Marketing, classificam como interiorização do Brasil.

“Cada vez mais, as empresas procuram as cidades fora dos grandes centros para se instalar, o que acaba levando emprego, renda e consumo para o interior”, explica. Para reforçar a análise, o estudo mostra o aumento no potencial de compras de municípios vizinhos de Belo Horizonte. Isso ocorreu, por exemplo, em cidades que sofrem influência do Vetor Norte da Região Metropolitana de BH, onde a ampliação do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, atraiu companhias de todos os portes e dezenas de condomínios fechados.

Na região, o potencial de consumo entre 2013 e 2014 subirá de R$ 985 milhões para R$ 1,023 bilhão em Pedro Leopoldo; de R$ 1,427 bilhão para R$ 1,601 bilhão em Vespasiano; e de R$ 2,636 bilhões para R$ 3,121 bilhões em Santa Luzia. Estima-se também expansão em municípios do outro lado do limite com a capital. Haverá aumento em Contagem, de R$ 10,5 bilhões para R$ 10,6 bilhões, e em Betim, de R$ 5,624 bilhões para R$ 6,081 bilhões.

Fuga de classes

“Além da questão da interiorização do consumo, outro fato que levou à queda do potencial de compra dos moradores de BH foi a diminuição na quantidade de domicílios das classes A e C.”, diz Pazzini. Na classe A a perda foi de 3% na quantidade de residências, o que levou a um recuo de 12,1% no potencial de consumo desse grupo. A classe C, por sua vez, teve retração de 5,3% no total de domicílios e recuo de 6,1% no valor do potencial de consumo.

Indicadores divulgados recentemente por entidades de classe da cidade, como a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH), reforçam a perda do poder de compra dos belo-horizontinos. É o caso do estudo que trata do registro de inadimplência, cujo número de dívidas em atraso cresceu 3,39% junto ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) no acumulado do primeiro semestre. Resultado: o comércio da capital mineira registrou, no acumulado dos cinco primeiros meses de 2014, o pior balanço em vendas na comparação com o mesmo período dos últimos cinco anos.

De janeiro a maio, a alta no comércio foi de 2,46%, atrás dos crescimentos apurados em 2013 (4,53%), 2012 (5,78%), 2011 (5,82%), 2010 (5,8%) e 2009 (3,7%) em idêntica base de comparação. “A inflação exerce grande influência sobre os orçamentos familiares, tendo em vista seu poder corrosivo sobre a renda e, consequentemente, sobre a capacidade de pagamento de dívidas”, observou Ana Paula Bastos, economista da CDL-BH. . Outro fator que pesou foi o aumento da taxa de juros, o que elevou o custo do crédito e fez a inadimplência na capital mineira crescer.

A questão dos juros, vale recordar, foi a causa que levou João Bosco a desistir de sua viagem a Porto Seguro este ano. A Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) apurou que a taxa média geral para pessoa física subiu 1,14 ponto percentual no primeiro semestre, atingindo 6,03% em junho. Trata-se do maior indicador desde julho de 2012. A inflação na capital mineira, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também se elevou: 4,07% no acumulado do primeiro semestre e 6,28% no dos últimos 12 meses, encerrados no mês passado.

“Os preços estão em alta em BH”, lamentou João Bosco, que recebe uma aposentadoria correspondente a um salário mínimo (R$ 724). “Não dá para comprar muita coisa”. Para reforçar o orçamento, ele começou a vender, há cerca de 30 dias, brinquedos feitos em madeira. São carrinhos, trens com vagões, helicópteros e aviões oferecidos a pedestres que passam num dos quarteirões da Praça Sete. “Não os fabrico. Apenas os revendo. Custam, cada, de R$ 30 a R$ 40. Vamos ver se o orçamento será engordado para que eu, em breve, possa viajar”, deseja João.

Peso maior para as despesas de casa

Os itens básicos lideram o consumo tanto das famílias brasileiras quanto das mineiras. O grupo campeão de gastos é o que reúne os desembolsos com a manutenção do lar: impostos, aluguel, contas de água e luz, etc. No Brasil, essa cifra corresponderá a R$ 770 bilhões no acumulado de janeiro a dezembro. Desse total, os moradores da capital mineira vão desembolsar R$ 14,3 bilhões.

João Bosco, o aposentado que deseja viajar para Porto Seguro (BA), paga R$ 600 mensais de aluguel. Parte do orçamento que sobra, ele guarda para trocar o aparelho de televisão. João gostaria de ter comprado um televisor antes da Copa do Mundo, mas, depois de pesquisar, optou por esperar o fim do torneio, quando, tradicionalmente, os lojistas reduzem o preço desse tipo de mercadoria.

“Queria assistir aos jogos numa televisão nova, mas não deu certo. Pretendo comprar o aparelho nos próximos dias”, disse João, enquanto manuseava uma das miniaturas que vende na Praça Sete. O potencial de consumo no restante do país, porém, está acima da previsão de especialistas para o aumento do Produto Interno Bruto.

O último boletim Focus, divulgado na semana passada pelo Banco Central, mostra que o PIB poderá subir 1,05% no acumulado desse ano. Já o potencial de consumo, segundo o estudo da IPC, tende a crescer 8%. O Focus é o estudo feito semanalmente com base na opinião dos principais economistas do Brasil.

“(O estudo da IPC) indica que o cenário de consumo do país está em plena expansão, puxado pela classe média (classe B), que responderá por 50,8% (aproximadamente R$ 1,55 trilhão), mais da metade de tudo o que é consumido no mercado brasileiro, comportando 35,4% (ou 19,7 milhões ) dos domicílios urbanos”, destaca o relatório da editora.

Fonte: EM.com